O Espelho que a Vida Coloca Diante de Nós!

Encara o que incomoda. O que dói, o que paralisa, o que a gente aprende a esconder até de nós mesmas. Existem dores que chegam antes da consciência: um aperto no peito, uma agitação silenciosa, um peso que ninguém vê, mas que insiste em morar dentro. Às vezes sentimos sem entender, e mesmo sem entender já sabemos que algo ali precisa de cuidado. O que assusta não é o tamanho da dor, mas a verdade que ela carrega. Enfrentar o que machuca exige coragem  e coragem, ao contrário do que parece, não é força bruta. É delicadeza. É a decisão íntima de olhar para aquilo que evitamos por tanto tempo. É dizer a si mesma: “eu vou encarar isso, mesmo que o medo venha junto”.

Chega um momento em que a vida nos alcança. Um momento em que já não dá para correr, distrair, tapar os ouvidos, fingir que está tudo bem. A vida coloca um espelho interno diante de nós e pergunta, quase sempre sem aviso: você vai continuar fugindo ou vai finalmente se ouvir? E então surgem aquelas perguntas que ninguém ensina a responder: eu paro para sentir ou sinto para conseguir parar? Talvez a resposta seja um pouco dos dois. Porque existem dias em que a pausa é a única forma de continuar. E há dias em que pensar é a única forma de não se perder dentro do próprio caos.

A vida acontece nesse movimento contínuo entre pausa e coragem. Entre medo e entrega. Entre se proteger e, ao mesmo tempo, permitir-se olhar para dentro. Encara o incômodo não como castigo, mas como chamado. A dor, por mais estranha que pareça, é um mapa. Ela aponta exatamente para o que precisa de cuidado, para aquilo que tenta ser visto, nomeado, compreendido. O que evitamos cresce, ganha força, ocupa espaços. O que encaramos começa, pouco a pouco, a perder o poder que tinha sobre nós.

E, na medida em que olhamos para dentro, descobrimos algo sutil: a dor não some de uma vez, mas muda de forma. Ganha contorno, ganha linguagem, deixa de ser um monstro invisível e passa a ser uma parte nossa que estava pedindo acolhimento. E, quando ela muda, nós mudamos junto. Sem barulho, sem espetáculo, mas com uma honestidade silenciosa que transforma tudo aos poucos  por dentro primeiro, por fora depois. Porque encarar o que incomoda não nos enfraquece. Nos devolve para nós mesmas.

Psicóloga Elaine Patrício 
CRP 06.196547 

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