Relacionamentos Afetivos: Entre o Desejo e a Ilusão

Vivemos em um tempo em que amar parece simples, mas sustentar o amor é um dos maiores desafios da vida psíquica. Nas redes, o amor é editado, iluminado e publicado em fragmentos que pouco revelam do que realmente se vive. O outro aparece como promessa de completude alguém que, enfim, virá preencher o que nos falta.

Mas, do ponto de vista psicanalítico, é justamente aí que mora o engano: o amor não vem para nos completar, e sim para nos confrontar com o que nos falta. Freud já dizia que o amor é uma forma de repetir, e Lacan acrescenta: amamos no outro algo de nós mesmos que não sabemos nomear. O encontro amoroso, portanto, é também um espelho onde o que mais nos encanta é, muitas vezes, o que mais nos angustia.

O amor convoca o sujeito à falta, à renúncia, à vulnerabilidade. E isso o torna um campo fértil para projeções e idealizações. Amamos o que acreditamos ver, e sofremos quando o véu da idealização cai. É nesse momento que o amor se mostra como um ato ético não apenas um sentimento, mas uma decisão de sustentar o laço mesmo quando o ideal se desfaz.

Filosoficamente, amar é se colocar diante do outro sem tentar possuí-lo. É reconhecer a alteridade como presença viva, que nunca será inteiramente compreendida. É permitir que o amor seja movimento, não prisão; encontro, não fusão.

Muitos chegam à terapia dizendo: “dou tudo e não recebo nada”. E é importante pensar: o que significa “dar tudo”? Muitas vezes, é dar o que se gostaria de receber  um gesto que nasce mais do medo de perder do que do desejo genuíno de oferecer. Dar tudo pode ser, paradoxalmente, uma forma de tentar controlar o amor, de garantir que o outro não vá embora.

A maturidade afetiva não está em encontrar o amor perfeito, mas em suportar a imperfeição: a nossa e a do outro. É reconhecer que amar não é estar inteiro, e sim aceitar a própria incompletude diante da alteridade.

Na escuta psicanalítica, o amor não é visto como algo a ser corrigido, mas compreendido. Porque, em última instância, amar é também uma forma de se conhecer e talvez seja por isso que ele nos transforma tanto.

Comments