“Uma pessoa quebrada quebra o outro”: o que essa frase revela sobre nós? ,


Em sessão, um paciente me disse algo que ficou ressoando muito além do consultório:
“Uma pessoa quebrada quebra o outro.”

A frase é dura, direta, quase cortante.
E, ao mesmo tempo, revela uma sabedoria emocional profunda mesmo que embrulhada na dor.

Mas o que significa, afinal, “uma pessoa quebrada”?

Na psicanálise, ninguém é “quebrado” no sentido literal.
O sujeito se racha onde algo faltou, onde não houve simbolização, onde a dor não encontrou elaboração possível.
As fissuras se formam nas histórias que não foram ditas, nos traumas silenciosos, nas expectativas esmagadas.

O problema é que, quando nos aproximamos de alguém que não consegue lidar com suas próprias rupturas internas, essas rachaduras inevitavelmente encostam nas nossas.
E é aí que sentimos a quebra.

Às vezes o outro não tem espaço psíquico para sustentar um vínculo.
Às vezes reage com fuga, frieza, incoerência, agressividade.
Às vezes nem percebe que fere está apenas tentando sobreviver ao próprio caos.

E quem está próximo?
Recebe estilhaços.

Não porque mereça, não porque provoque, mas porque é humano estar ali e humanos se tocam, mesmo quando tentam não tocar nas feridas.

Mas existe algo importante:
o outro não nos quebra sozinho.
O que dói é o encontro entre a fratura dele e a nossa.
É a expectativa que criamos, a fantasia que projetamos, o desejo que depositamos e que não encontra lugar para se apoiar.

Quando meu paciente disse “uma pessoa quebrada quebra o outro”, ele estava nomeando a sensação de ser atingido por algo que não era dele mas que abriu nele uma parte que já existia antes.

Ninguém tem a obrigação de “consertar” ninguém.
O sujeito só pode ir até onde consegue ir.
E o outro, ao perceber o impacto, precisa se perguntar:

O que essa quebra despertou em mim?
Que parte minha se rachou junto?
Por que eu permaneci onde já não havia sustentação?

O encontro entre duas pessoas nunca é encontro de inteirezas, mas de histórias.
Histórias com falhas, vazios, marcas, desejos.

E reconhecer isso não é desistir do amor 
é retirar do amor a fantasia de que ele só existe quando tudo está inteiro.

Porque, no fundo, não é a pessoa quebrada que quebra o outro.
É o modo como cada um lida com suas próprias fissuras no encontro com o real do outro.

Psicóloga Elaine Patricio

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