A mudança dói? Por quê?
Um olhar psicanalítico sobre o que se move dentro de nós!
A mudança costuma chegar como um sopro que desorganiza, um incômodo que atravessa o corpo antes mesmo de ganhar palavras. Há quem diga que mudar dói e de fato dói, mas não por ser ruim em si. A mudança dói porque desloca estruturas internas muito antigas, lugares onde aprendemos a existir, a desejar e até a sofrer. Do ponto de vista psicanalítico, mudar nunca é apenas “fazer algo diferente”; é tocar naquilo que foi constituído como nossa forma mais íntima de ser.
Freud nos mostra que o psiquismo humano é profundamente apegado ao conhecido. Mesmo quando o conhecido nos machuca, ele ainda assim oferece uma economia psíquica: sabemos repetir, sabemos sobreviver ali. Em “Além do Princípio do Prazer”, Freud descreve a compulsão à repetição, esse movimento que nos conduz, silenciosamente, de volta aos mesmos padrões. A mudança dói porque exige romper essa repetição e, portanto, tocar em defesas que um dia foram necessárias. É como se o inconsciente resistisse não por teimosia, mas por tentar preservar uma forma antiga de proteção.
Lacan aprofunda ainda mais essa ideia ao afirmar que o sujeito se sustenta em identificações imaginárias e em um lugar específico no desejo do Outro. Quando algo em nossa vida muda seja um trabalho, um relacionamento, um projeto ou uma versão de nós mesmos também se altera o ponto de apoio que nos organizava. A mudança dói porque nos desalojamos de um lugar conhecido. Perder esse lugar implica encarar a falta, essa estrutura que Lacan diz ser constitutiva. Mudar significa abandonar um pedaço da ficção que sustentava nossa identidade, e isso ativa uma angústia profunda: quem somos quando aquilo que nos definia deixa de existir?
Winnicott oferece outro caminho para compreender essa dor. Para ele, mudar é sempre um processo que toca experiências primitivas de dependência e confiança. A mudança reacende memórias emocionais muito precoces: “Quem estará comigo enquanto tudo se transforma?” Em muitos casos, a dor da mudança é a dor de entrar em contato com partes infantis que ainda temem o desamparo. Crescer emocionalmente inclui encarar esse território desconhecido, onde a sensação de perda aparece antes da possibilidade de ganho.
Bion, por sua vez, nos lembra que todo processo de transformação envolve frustração. Ele diz que crescer é aprender a suportar a realidade, a tolerar o fato de que algo precisa ser sentido, digerido e transformado em pensamento. A dor aparece quando a mente ainda não conseguiu elaborar o que está chegando. A mudança dói porque ela nos obriga a pensar o que até então não podia ser pensado. Ela exige que transformemos sensações brutas em significados, e esse trabalho psíquico é sempre exigente.
Mas se mudar dói, por que ainda desejamos a mudança? Porque, apesar de toda resistência, há em nós um movimento vital que busca expansão. Algo que pressiona desde dentro e que não se satisfaz com repetições que empobrecem o desejo. A mudança é um risco, mas também é a possibilidade de sair do mesmo, de respirar novos contornos de existência. A dor não é sinal de erro; é sinal de deslocamento. É a prova de que algo está sendo mexido, refeito, reescrito.
Quando Freud dizia “Onde isso estava, devo Eu advir”, ele apontava justamente para essa travessia: para que o Eu possa surgir de forma mais verdadeira, algo precisa se mover. E quando algo se move, dói. A dor é o testemunho da passagem, o rastro sensível daquilo que está deixando de ser para dar lugar a outra coisa.
Mudar dói porque crescer dói.
Mudar dói porque deixar velhos lugares dói.
Mudar dói porque nascer de novo exige atravessar zonas psíquicas que evitamos durante anos.
Mas, paradoxalmente, é essa dor que nos revela vivos. E é também ela que anuncia que, embora desconfortável, a mudança está abrindo passagem para um modo de existir mais alinhado ao desejo aquele desejo que, mesmo silenciado, nunca deixou de nos chamar.
Psicóloga Elaine Patrício
CRP 06.196547
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