Amamos Onde Fomos Feridos: A Verdade Inconsciente dos Relacionamentos
Nos últimos dias, ao reler algumas frases sobre o amor, pensei em como Freud nos ajuda a compreender esse afeto tão celebrado e, ao mesmo tempo, tão enigmático. Freud foi o primeiro a apontar que o amor não nasce no presente: ele é uma trama feita dos fios mais antigos da nossa história infantil. Amamos a partir daquilo que nos marcou, da forma como fomos olhados, desejados ou não. Por isso, nenhum relacionamento é apenas entre dois adultos; sempre há, silenciosamente, a presença dos nossos primeiros objetos de amor.
Freud mostra que há, no amor, uma força silenciosa chamada compulsão à repetição: buscamos, sem perceber, reviver padrões antigos, seja para tentar consertar o que um dia nos feriu, seja para reencontrar um tipo familiar de dor ou de cuidado. O outro, então, nunca é totalmente novo: ele é também um reencontro com algo que já conhecemos por dentro. A escolha amorosa aquilo que Freud chama de escolha de objeto é guiada pela memória inconsciente dos nossos primeiros vínculos. É como se repetíssemos, em cada relação, algo da mãe, do pai, de quem cuidou de nós, de quem nos fez desejar pela primeira vez.
Mas amar, para Freud, nunca é simples. Há sempre ambivalência: amor e ódio convivem no mesmo laço. Amamos e, ao mesmo tempo, tememos perder; desejamos o outro, mas também desejamos nossa própria autonomia; queremos cuidar, mas também queremos ser cuidados. A relação amorosa é, por natureza, um campo de conflito. Não um conflito destrutivo, mas estrutural: para amar, é preciso suportar que o outro é diferente, faltante, falho assim como nós.
No centro dessa dinâmica está o narcisismo. Freud diz que amamos a partir de três formas: amamos aquilo que fomos um dia, aquilo que gostaríamos de ser, ou aquilo que amamos em nós mesmos projetado no outro. O amor é, portanto, um espelho: buscamos no outro uma versão possível de nós mesmos, uma imagem que nos prometa completude, mesmo que essa completude seja apenas uma fantasia necessária para sustentar o desejo.
É por isso que, muitas vezes, amar implica lutar, permanecer e tentar fazer dar certo não porque o amor cure tudo, mas porque ele nos convoca a revisitar nossos modos de desejar, repetir e sofrer. Em outras situações, amar também é deixar ir, quando percebemos que estamos presos à repetição que machuca e não transforma. O movimento ético do amor, em Freud, não está no sacrifício nem no abandono, mas na possibilidade de reconhecer nossas próprias escolhas inconscientes para, então, fazer escolhas mais livres.
Freud nos ensina que amar é sempre atravessar um terreno onde passado e presente se encontram. E talvez o que chamamos de maturidade afetiva seja justamente isso: reconhecer que o amor não é só sentimento, mas uma construção que envolve história, conflito, desejo e coragem. No final, amar é menos sobre encontrar um final perfeito e mais sobre sustentar o trabalho psíquico de olhar para si mesmo enquanto se olha para o outro.
Psicóloga Elaine Patrício
CRP 06.196547
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