☕ Café com Freud: A Mãe Solteira
Se Freud estivesse tomando café comigo e com você para falar sobre a mãe solteira, ele provavelmente observaria em silêncio por alguns segundos, até soltar aquela frase que desloca tudo: “Comecemos pelo desejo da mãe.” Porque, para ele, a maternidade nunca é apenas um ato biológico; é uma trama psíquica que se escreve entre o amor, a falta, o impossível e a responsabilidade de inaugurar um mundo para alguém. E quando essa mulher é uma mãe solteira, tudo o que já é complexo se intensifica. Ela se torna, ao mesmo tempo, função materna, função paterna, amparo, limite, corpo, desejo, falha e potência. O mundo exige dela o duplo, mas oferece metade do suporte.
Para Freud, a mãe solteira ocupa o lugar simbólico de “única” diante da criança. Não porque ela queira, mas porque a estrutura a coloca ali. É através dela que o bebê encontra o primeiro amor, o primeiro susto, o primeiro limite e a primeira falta. É ela quem regula o excesso e a ausência, quem acolhe e frustra, quem sustenta a vida e, paradoxalmente, precisa aceitar que não pode sustentar tudo. E é justamente aqui que Freud sorriria com aquele ar de quem sabe demais: nenhuma mãe dá conta de ser tudo e é isso que permite o desenvolvimento psíquico da criança.
Mas Freud nunca deixaria passar a pergunta fundamental: “E o desejo da mãe?” A mãe solteira, tantas vezes empurrada socialmente para o lugar do sacrifício absoluto, é convocada a não desejar, a não falhar, a não reclamar. Porém, na psicanálise, quando a mãe apaga seu desejo para funcionar apenas como cuidadora, o sintoma aparece. A culpa se instala. O corpo fala. A exaustão se torna rotina. A criança, sem querer, sente que precisa “cuidar” da mãe e entra em zonas que não lhe pertencem. Não é a maternidade que adoece a mãe solteira é o apagamento de sua condição de mulher, de sujeito.
Freud diria ainda que, quando não há pai presente, não é o fim da estrutura, porque o que importa não é o pai biológico, mas a função paterna aquele gesto simbólico que diz ao filho: “Sua mãe não é tudo. Há um mundo além dela.” Essa função pode vir de muitos lugares: um avô, uma avó, um professor, um tio, uma tia, uma figura de afeto, a própria realidade, a escola, o tempo, até mesmo a ausência que se impõe como limite. A psicanálise nunca pediu um pai perfeito apenas pediu que houvesse algo que separasse a criança da fusão com a mãe.
E, claro, Freud reconheceria imediatamente a presença constante da culpa. A mãe solteira convive com ela como uma sombra fiel: culpa por trabalhar demais ou de menos, por ser rígida ou flexível, por dar muito ou pouco, por falhar ou acertar, por existir do jeito que consegue. A culpa é a fantasia de onipotência vestida de sofrimento: a ideia de que tudo o que acontece com a criança é responsabilidade exclusiva dela. Freud nos lembra, com firmeza, que nenhuma mãe governa o inconsciente do filho. Há forças que escapam, atravessamentos que fogem do controle, histórias que se escrevem além dela.
No fim, ele insistiria no ponto mais silencioso e mais ignorado: a mãe solteira continua sendo mulher. Ela tem desejo, corpo, sexualidade, cansaço, sonhos, fantasias, medos e limites. Ela não desaparece porque virou mãe, e muito menos porque criou alguém sozinha. Sustentar sua condição de sujeito é parte do trabalho materno talvez a parte que mais protege a criança.
Se Freud fosse concluir esse café, ele diria que a mãe solteira não é heroína, nem mártir, nem deusa, embora tantas vezes coloquem-na nesses lugares. Ela é um sujeito dividido, desejante, humano. Ama e falha. Tenta e cansa. Erra e retorna. Carrega seus próprios pedaços enquanto sustenta o crescimento de outro ser. E, ainda assim, segue. Porque, no fundo, a mãe solteira não é definida pela falta, mas pela coragem radical de existir apesar dela.
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