O sujeito hiperconectado e o colapso da intimidade: quando o desejo perde a casa.
Vivemos em uma época em que o toque da tela substituiu, quase sem perceber, o toque do mundo. O sujeito contemporâneo esse sujeito hiperconectado habita uma realidade em que a intimidade não desaparece de uma vez, mas se esgarça aos poucos, como um tecido que se desgasta no atrito de tantas notificações.
A psicanálise contemporânea, de autores como Joel Birman, Byung-Chul Han e mesmo Zygmunt Bauman, nos ajuda a compreender que a conexão constante não apenas altera nossos hábitos, mas reorganiza profundamente o desejo, o tempo interno e o modo como estabelecemos presença conosco e com o outro.
O excesso de telas e a reorganização do desejo
Para a psicanálise, o desejo nunca é direto; ele é sempre desviado, atravessado, enviesado. Freud já anunciava que desejamos por caminhos tortos. Mas, no tempo hiperconectado, esses caminhos se multiplicam ao infinito.
Byung-Chul Han aponta que vivemos numa “sociedade da transparência”, na qual tudo quer se mostrar e nada quer permanecer em segredo. Isso cria um problema: o desejo precisa da falta, do intervalo, do não saber mas a tela oferece um mundo sem pausas, sem hiatos, sem silêncio.
Assim, o sujeito passa a desejar de maneira fragmentada, acelerada, sempre à espera do próximo estímulo que promete e quase nunca entrega a sensação de completude.
O desejo, que antes caminhava, agora desliza.
O scroll infinito como nova forma de gozo.
Lacan definia o gozo como aquilo que ultrapassa o prazer, algo que nos captura para além da medida. O scroll infinito é a versão contemporânea desse excesso.
Não há fim, não há borda, não há conclusão. Apenas o movimento repetitivo que nos mantém ali, suspensos entre o tédio e a excitação mínima. O gozo, nesse caso, não é da descoberta, mas da própria repetição deslizar é um modo de não se implicar, não se responsabilizar, não se encontrar.
O psicanalista contemporâneo Charles Melman fala do “Outro em via de desaparecimento”, e talvez seja isso: o scroll produz um sujeito que não precisa mais do encontro com o outro, porque encontra infinitas imagens, infinitos semblantes, infinitas versões de si mesmo em pequenos fragmentos luminosos.
É o gozo sem corpo, sem cheiro, sem espera.
É o gozo do quase, do sempre mais, do nada suficiente.
A queda da experiência do “tempo interno”
O hiperconectado vive numa espécie de exílio silencioso de si mesmo. Ele está em todos os lugares menos dentro.
O tempo interno, aquele que se faz quando nos ouvimos, quando deixamos decantar, quando permitimos que um sentimento amadureça, é substituído pelo tempo da atualização: a necessidade constante de responder, ver, postar, acompanhar, não perder nada.
Birman chama isso de “exaurimento subjetivo”: quando o sujeito perde a capacidade de recolhimento e vive em estado permanente de vigília emocional.
Sem tempo interno, a intimidade colapsa.
Sem intimidade, o desejo empobrece.
Sem desejo, o sujeito se esvazia mas permanece ativo, funcional, conectado.
Eis o paradoxo: nunca estivemos tão ligados, e nunca estivemos tão sós.
Entre o excesso e o vazio: o convite da psicanálise
A psicanálise não propõe abandonar o digital, mas criar frestas.
Frestas onde a intimidade possa respirar novamente.
Onde o desejo possa ter tempo para nascer.
Onde o sujeito não seja reduzido a um dedo que desliza, mas a um corpo que sente, que pensa, que pausa.
Talvez o desafio do nosso tempo seja esse: recuperar a capacidade de estar consigo sem se perder, de estar com o outro sem se dissolver, e de estar no mundo sem desaparecer na lógica infinita de estímulos que nunca nos satisfazem.
No fundo, a pergunta que a psicanálise nos devolve é simples e radical:
“O que resta de você quando a tela se apaga?”
Elaine Patrício
Psicóloga
CRP 06.196547
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