A Coragem de Ser Quem se É!
Ai de mim se não fosse eu
Há frases que parecem simples, mas guardam uma densidade existencial quase insuportável. “Ai de mim se não fosse eu” não é uma afirmação de orgulho; é um enunciado de responsabilidade subjetiva. Ele não diz “eu me basto”, mas “sou eu quem habita esta vida e ninguém pode fazê-lo no meu lugar”.
Na psicanálise, o sujeito não é um indivíduo pronto, coerente e senhor de si. O sujeito é fendido, atravessado pelo inconsciente, marcado pela história, pelo desejo do Outro e por suas próprias faltas. Ainda assim, é a partir desse lugar fraturado que cada um precisa existir. Ai de mim se não fosse eu é o reconhecimento de que, mesmo ferido, dividido e muitas vezes confuso, sou eu quem deve responder pela minha posição no mundo.
Vivemos numa época que nos oferece identidades prontas: o que devemos ser, como devemos agir, como devemos sentir. O discurso da performance, da comparação e da felicidade obrigatória tenta nos afastar de nós mesmos. Quanto mais tentamos corresponder a esses ideais, mais nos perdemos. Nesse contexto, dizer “ai de mim se não fosse eu” é quase um gesto de resistência. É recusar a substituição da própria singularidade por um modelo.
Winnicott falava do verdadeiro self como aquilo que emerge quando o sujeito pode existir sem precisar se adaptar o tempo todo às exigências do ambiente. Quando somos forçados a viver a partir de um falso self agradando, performando, sobrevivendo algo em nós adoece. A frase, então, ganha outro sentido: ai de mim se eu tiver que deixar de ser quem sou para continuar existindo.
Lacan nos lembra que o sujeito só se constitui a partir da falta. Não há identidade completa, não há “eu” plenamente fechado. Somos feitos de buracos, de perguntas, de desejos que nunca se satisfazem totalmente. Ainda assim, é justamente isso que nos torna vivos. Ai de mim se não fosse eu também pode ser lido como: ai de mim se eu renunciar ao meu desejo para caber no desejo do outro.
Há algo profundamente acolhedor nessa frase porque ela nos autoriza a existir como somos e não como deveríamos ser. Ela nos permite reconhecer nossas contradições, nossos limites, nossa história, sem precisar nos apagar para caber no mundo. Não se trata de narcisismo, mas de sobrevivência psíquica.
Em análise, muitas vezes o sujeito chega tentando se livrar de si: do que sente, do que deseja, do que lembra. Quer ser outro, quer não doer, quer não faltar. Mas o trabalho analítico é justamente o inverso: é sustentar-se como sujeito da própria experiência. É poder dizer, pouco a pouco: isso sou eu, com minhas marcas, meus medos, meus amores e minhas faltas.
Por isso, ai de mim se não fosse eu é uma frase que não grita grandiosidade, mas existência. Ela não promete felicidade, mas verdade. E, na clínica e na vida, poucas coisas são tão curativas quanto poder habitar a própria singularidade sem pedir desculpas por ela.
Talvez, no fundo, essa frase diga algo muito simples e muito profundo:
não há outro lugar possível para viver senão dentro de si.
Psicóloga Elaine Patricio

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