Monogamia: entre o ideal social e o sofrimento do sujeito


A monogamia, mais do que uma escolha afetiva, é um significante que atravessa o sujeito desde muito cedo. Ela se apresenta como promessa de estabilidade, de segurança e de completude, mas também como exigência, norma e ideal a ser sustentado.
Entre o que se espera e o que se vive, instala-se frequentemente o sofrimento.

Na lógica do discurso social, amar um só parece ser sinônimo de maturidade, compromisso e valor moral. O sujeito aprende, muitas vezes sem perceber, que desejar além do permitido é falhar, é trair, é colocar em risco sua própria imagem e o lugar que ocupa no laço com o outro.
Assim, a monogamia deixa de ser apenas uma forma de vínculo e passa a operar como um imperativo: é preciso desejar de um certo modo.

A psicanálise nos permite escutar aquilo que escapa a esse ideal. O desejo não se organiza segundo regras morais, nem se submete completamente às normas sociais. Ele é marcado pela falta, pela incompletude e pela impossibilidade de totalizar o outro. Quando o sujeito tenta encaixar seu desejo em um modelo rígido de amor, muitas vezes se vê dividido entre o que sente e o que acredita que deveria sentir.

Esse conflito pode se manifestar como culpa, angústia, silêncio, autoacusação ou medo de perder o amor do outro. O sujeito sofre não apenas pelo que deseja, mas por desejar aquilo que não encontra lugar no discurso dominante. A monogamia, nesse sentido, não é apenas uma estrutura de relação, mas um campo simbólico onde se inscrevem expectativas, frustrações e fantasias.
Há também o sofrimento que emerge da ilusão de completude. A ideia de que o outro deve preencher todas as faltas, responder a todas as demandas e garantir uma felicidade contínua produz inevitavelmente decepção. O parceiro torna-se depositário de um ideal impossível, e o amor, ao invés de encontro entre faltas, transforma-se em cobrança silenciosa.

Não se trata de afirmar a monogamia como problema ou solução, mas de reconhecer que, para muitos sujeitos, ela se torna um lugar de tensão entre o desejo singular e a norma coletiva. O sofrimento não nasce necessariamente da monogamia em si, mas da tentativa de apagar a complexidade do desejo em nome de um ideal socialmente valorizado.

Talvez o ponto mais delicado seja justamente esse: o sujeito não sofre apenas por amar, mas por tentar amar segundo um roteiro que não foi escrito por ele.

Psicóloga Elaine Patrício 

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