Repatologização: quando o sofrimento volta a ser tratado como doença!


Vivemos um tempo em que, com muito esforço, começamos a questionar a patologização excessiva da vida. Sentimentos como tristeza, angústia, luto, cansaço e frustração passaram ao menos em discurso a ser reconhecidos como experiências humanas, atravessadas pela história de cada sujeito e pelo contexto social em que vive.
No entanto, algo curioso e preocupante vem acontecendo: a repatologização do sofrimento.
Aquilo que havia sido retirado do campo estritamente médico retorna, muitas vezes com força redobrada, agora embalado por diagnósticos rápidos, rótulos fáceis e soluções imediatas. O sofrimento volta a ser visto como falha individual, desequilíbrio químico ou incapacidade psíquica e não mais como uma resposta possível a um mundo adoecedor.
Repatologizar é, em certa medida, silenciar a história do sujeito.
Quando tudo vira transtorno, perde-se a escuta. Perde-se o tempo necessário para compreender o que aquele sofrimento está tentando dizer. A dor deixa de ser pergunta e passa a ser erro. Algo a ser corrigido, eliminado, anestesiado.
Na clínica, isso aparece de forma clara: pessoas que chegam já se nomeando pelo diagnóstico, como se ele fosse sua identidade.
“Eu sou ansiosa.”
“Eu sou depressiva.”
“Eu tenho um transtorno.”
Pouco se fala do porquê, do quando, do com quem, do em que contexto esse sofrimento surgiu. A história cede lugar ao rótulo.
A psicanálise nos lembra que o sintoma não é apenas algo a ser removido. Ele é também uma tentativa de resposta do sujeito ao que o atravessa. Repatologizar é retirar essa possibilidade de elaboração, é reduzir a complexidade da experiência humana a categorias fechadas.
Não se trata de negar diagnósticos ou a importância da psiquiatria. Trata-se de lembrar que nem todo sofrimento é patológico. Nem toda dor é doença. Nem toda angústia precisa ser corrigida algumas precisam ser escutadas.
Quando patologizamos novamente o viver, corremos o risco de transformar a clínica em um espaço de adaptação forçada: adaptar o sujeito a um mundo que não para, não acolhe e não escuta.
Talvez a pergunta não seja “o que há de errado com você?”, mas
“o que aconteceu com você?”
Repatologizar é um movimento de pressa.
Escutar é um ato ético.
E, hoje, mais do que nunca, a clínica precisa sustentar o lugar da escutamesmo quando o mundo insiste em transformar tudo em diagnóstico.

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